Não há dia em que não fale (como é que eu te faço calar?).
Às vezes parece que lhe falta o ar de tanto que tem para dizer (porque é que não medes as palavras?)
A sua voz é estridente (porque não andaste na terapia da fala ou em aulas de dicção?)
Por vezes apetece-me mandá-la calar. Mas remeto-me ao silêncio.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
As palavras e os seus problemas
Ao som dos Smiths, claro!
Um aglomerado de letras, melhor, uma palavra disse: raios, tenho um problema! Uma outra respondeu, cheia de vontade de saltar para a ribalta: mas afinal o qual é o teu problema? Vai ao psicólogo, eles são a cura do século XX! Uma outra, mais tímida (os tímidos quando falam só dizem coisas acertadas), acrescentou, aborrecida: estamos no Século XXI minhas grandes bestas!
Pois o problema da primeira é que não se entendia com nenhuma das outras duas, nem com outras demais, que nem personagens chegam a ser nesta história sem fio. E o que se faz quando as palavras têm um problema? Uma terapia conjunta como esta. Une-se, reune-se uma à outra de modo a que forçosamente se entendam, elas estão aqui escondidas, com caras aborrecidas e cheias de maus modos para com quem as obriga a co-existir. É uma espécie de castigo. A sua tutora pergunta-se agora, quando farão as palavras as pazes?
E elas respodem com maus modos no dia de são nunca à tarde.
Um aglomerado de letras, melhor, uma palavra disse: raios, tenho um problema! Uma outra respondeu, cheia de vontade de saltar para a ribalta: mas afinal o qual é o teu problema? Vai ao psicólogo, eles são a cura do século XX! Uma outra, mais tímida (os tímidos quando falam só dizem coisas acertadas), acrescentou, aborrecida: estamos no Século XXI minhas grandes bestas!
Pois o problema da primeira é que não se entendia com nenhuma das outras duas, nem com outras demais, que nem personagens chegam a ser nesta história sem fio. E o que se faz quando as palavras têm um problema? Uma terapia conjunta como esta. Une-se, reune-se uma à outra de modo a que forçosamente se entendam, elas estão aqui escondidas, com caras aborrecidas e cheias de maus modos para com quem as obriga a co-existir. É uma espécie de castigo. A sua tutora pergunta-se agora, quando farão as palavras as pazes?
E elas respodem com maus modos no dia de são nunca à tarde.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
solto
O texto da vida dela ao som dos Broken Bells.
A tristeza era absolutamente inspiradora, tão simplesmente porque na tristeza há um caminho para algum lugar, há um efeito compensador qualquer, cujo conteúdo desconhecemos, mas que trilhamos para conquistar um outro estado. Uma outra coisa. Ela era assim. Meio caminho para o inexplicável e um outro caminho para a banalidade que nos é comum a todos.
Vai escrever para sarar a fome.
Vai partir pratos para compensar a raiva.
Vai ser humana para melhor viver com todos.
E o que fica?
A tristeza era absolutamente inspiradora, tão simplesmente porque na tristeza há um caminho para algum lugar, há um efeito compensador qualquer, cujo conteúdo desconhecemos, mas que trilhamos para conquistar um outro estado. Uma outra coisa. Ela era assim. Meio caminho para o inexplicável e um outro caminho para a banalidade que nos é comum a todos.
Vai escrever para sarar a fome.
Vai partir pratos para compensar a raiva.
Vai ser humana para melhor viver com todos.
E o que fica?
segunda-feira, 12 de julho de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
«Ser motor»
Ao fim de alguns anos de vida adulta cheguei a uma conclusão: sou um motor. E que quererá dizer isso?
Creio que há pessoas que nasceram para estar por trás da cortina, outras à frente e, outras ainda, que estão num plano intermédio, que corresponde ao "fazer acontecer" (expressão estranha esta se pensarmos bem). É onde estou. Ser motor é fazer com que as coisas aconteçam, reunindo as pessoas e escolhendo correspondências. E isto aplica-se no trabalho, claro, mas principalmente na vida pessoal, nas relações com as pessoas e a forma como gerimos o nosso tempo.
As vantagens de «ser motor» é que se prova o melhor gosto de ser um líder natural (sem ambições de o ser, ainda assim), e ser líder é tomar decisões, tentar adaptar as situações às pessoas, ou vice-versa. Um líder acaba por se habituar mal, porque na maior parte das vezes as coisas acabam por ser feitas à sua maneira e quando é contestado sente o sabor da injustiça, porque geralmente quem o contesta não propõe alternativas.
Um dia li algures que os líderes são sempre pessoas solitárias, apesar de reunirem muita gente à sua volta.
Por vezes acontece um certo cansaço, aqueles que estão por trás da cortina nem sempre se apercebem o quão desgastante é tomar decisões a toda a hora, em prol de um grupo de pessoas, ou de uma só até. E seguem descomprometidas, despreocupadas, desprendidas, à espera que alguém lhes tome a decisão de suas vidas.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Surf #1
Amanhã entro na água às 8,30. O nível do meu surf ainda é tremendamente artesanal, mas penso que nunca é tarde para se começar a fazer uma actividade que nos move. Á água move-me de alguma maneira, onde ainda não há palavras para concretizar. Mas saberei fazê-lo.O fim de semana parece muito maior quando acordo ao Sábado de manhã cedo. E dormir já não se me afigura o melhor para se fazer com dois dias sem trabalho.
Fotografia de Brian Bielmann , fotógrafo dedicado a estas coisas da água!
quinta-feira, 6 de maio de 2010
mini-post #12 - Tive uma ideia
Todas as manhãs ao subir as escadas para apanhar o comboio em Belém olho para a esquerda e vejo os progressos das obras para o futuro Museu dos Coches. Quem dera que tivesse tido esta ideia há mais tempo: todas as semanas vou fotografar aquela área e perceber a sua evolução até estar pronto!
terça-feira, 4 de maio de 2010
Envelhecer
Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.
Hoje vi um senhor à janela, pareceu-me de olhar perdido. Ou talvez seja uma mera suposição minha a atirar para o poético.
Ocorreu-me que não tenho vontade nenhuma de envelhecer e chegar a uma idade (exemplo que me surgiu: 70 anos) em que as pessoas que povoam o meu imaginário já não são vivas, serei eu, na altura, (ao menos isso espero) a povoar o imaginário de outrem. Como será fazer parte da geração mais nova de uma família e isso acabar? Não sei e gostava de não saber nunca. Mas para lá caminho. Divagações próprias de Marte.
Esse senhor que estava à janela meditava talvez, ou pensava o que lhe reservaria o dia livre de obrigações laborais, disse bom dia, quase simpático, quase. Ao ser interpelado, há dias, por mim, surgiu nele uma simpatia que lhe desconhecia, convidou-me a entrar em sua casa e disponibilizou-se para me ajudar num problema que me surgira. Os vizinhos servem para estas coisas.
Continuo a pensar o que é isso de envelhecer, carregar com a idade e os problemas que a mesma traz. Será que a boa-disposição se vai diluindo? É agora que digo no final da casa dos 20's que queria ficar forever young. Acho que é a partir do momento em que estes assuntos nos ocupam nem que por minutos o pensamento que começamos a sentir o "envelhecer". A ver um cabelo branco aqui e ali a sentir que na rua, à noite, somos pais de alguns míudos, que de copo na mão se julgam crescidos.
Aquele senhor é velho, não só carrega a idade como todos os problemas que com ela vieram. Quebrou-se um pouco, nota-se nas costas mais curvas, nota-se o olhar confuso, vago.
Mas a ajuda manteve-se e desde que o vejo à janela, depois daquele dia, mesmo que não me sorria eu sei que o faço.
O sorriso traz-nos alguma juventude, talvez.
Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim', o livro que leio actualmente.
Hoje vi um senhor à janela, pareceu-me de olhar perdido. Ou talvez seja uma mera suposição minha a atirar para o poético.
Ocorreu-me que não tenho vontade nenhuma de envelhecer e chegar a uma idade (exemplo que me surgiu: 70 anos) em que as pessoas que povoam o meu imaginário já não são vivas, serei eu, na altura, (ao menos isso espero) a povoar o imaginário de outrem. Como será fazer parte da geração mais nova de uma família e isso acabar? Não sei e gostava de não saber nunca. Mas para lá caminho. Divagações próprias de Marte.
Esse senhor que estava à janela meditava talvez, ou pensava o que lhe reservaria o dia livre de obrigações laborais, disse bom dia, quase simpático, quase. Ao ser interpelado, há dias, por mim, surgiu nele uma simpatia que lhe desconhecia, convidou-me a entrar em sua casa e disponibilizou-se para me ajudar num problema que me surgira. Os vizinhos servem para estas coisas.
Continuo a pensar o que é isso de envelhecer, carregar com a idade e os problemas que a mesma traz. Será que a boa-disposição se vai diluindo? É agora que digo no final da casa dos 20's que queria ficar forever young. Acho que é a partir do momento em que estes assuntos nos ocupam nem que por minutos o pensamento que começamos a sentir o "envelhecer". A ver um cabelo branco aqui e ali a sentir que na rua, à noite, somos pais de alguns míudos, que de copo na mão se julgam crescidos.
Aquele senhor é velho, não só carrega a idade como todos os problemas que com ela vieram. Quebrou-se um pouco, nota-se nas costas mais curvas, nota-se o olhar confuso, vago.
Mas a ajuda manteve-se e desde que o vejo à janela, depois daquele dia, mesmo que não me sorria eu sei que o faço.
O sorriso traz-nos alguma juventude, talvez.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Uma silueta, uma fotografia
Parte primeira.
Uma visão de uma Aldeia. Uma Silhueta.
Uma imagem.
Há pessoas que deambulam sem prazer, no sabor desconhecido de horas longas que entorpecem o rigor citadino. O som é tão lento quanto os cem passos que aquele corpo envelhecido dá até ao ponto de encontro; onde, em cima de uma mesa, se jogam cartas para enganar um tempo sem estrutura. Ouvem-se as gargalhadas num fundo tão intenso quanto distante. E as árvores agitam-se e dançam. E parece que é fim de tarde.
A aldeia espalha-se numa linha recta de casas com um pé direito baixo. As árvores dão o tom e ao fundo vê-se uma correnteza de bancos onde todos se sentam quando estão cansados.
Noutros tempos montou-se um cinema em noites quentes de ar livre. Durante as projecções dos filmes havia pouca luz e muitas cabeças na mesma direcção. Todos comentavam os filmes e todos esperavam por Sábado.
Mas hoje é o dia e hoje não há cinema.
Hoje há uma silhueta lá ao fundo. Há ruídos distantes. Há uma tristeza conformada. Há um cheiro que vem da terra.
Há uma fotografia a preto e branco.
Uma visão de uma Aldeia. Uma Silhueta.
Uma imagem.
Há pessoas que deambulam sem prazer, no sabor desconhecido de horas longas que entorpecem o rigor citadino. O som é tão lento quanto os cem passos que aquele corpo envelhecido dá até ao ponto de encontro; onde, em cima de uma mesa, se jogam cartas para enganar um tempo sem estrutura. Ouvem-se as gargalhadas num fundo tão intenso quanto distante. E as árvores agitam-se e dançam. E parece que é fim de tarde.
A aldeia espalha-se numa linha recta de casas com um pé direito baixo. As árvores dão o tom e ao fundo vê-se uma correnteza de bancos onde todos se sentam quando estão cansados.
Noutros tempos montou-se um cinema em noites quentes de ar livre. Durante as projecções dos filmes havia pouca luz e muitas cabeças na mesma direcção. Todos comentavam os filmes e todos esperavam por Sábado.
Mas hoje é o dia e hoje não há cinema.
Hoje há uma silhueta lá ao fundo. Há ruídos distantes. Há uma tristeza conformada. Há um cheiro que vem da terra.
Há uma fotografia a preto e branco.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
O que se ouve em Marte #19

É um dos álbuns mais entusiasmantes dos últimos tempos. O canadiano Daniel Victor Snaith, conhecido por Caribou, aperfeiçoa os seus sons nos teritórios electrónicos e da-nos um puro deleite musical.
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Música,
O que se ouve em Marte
Um regresso
Para um regresso não é preciso muito, apenas uma vontade. Resta saber se é uma vontade consistente, ou apenas um rasgo do pensamento.
Tenho dúvidas se devo manter este blogue ou iniciar um novo, e é sobre isso que vou reflectir nos próximos dias.
Quero apenas sentir o pulsar das palavras dentro de mim e poder escoá-las para algum lado. Procuro a resposta se aqui será o sítio certo. Vamos ver. Por enquanto penso que "estou de volta" é uma boa frase.
Tenho dúvidas se devo manter este blogue ou iniciar um novo, e é sobre isso que vou reflectir nos próximos dias.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
«There's a light that never goes out»
Estou a ouvir o novo álbum do Rodrigo Leão. Desconheço se foi a mola que me impeliu a abrir o Blogger. Há muito que me lembro do meu próprio blogue, do meu espaço, de mim. Parece que me esqueci, mas não esqueci. Esteve apenas em banho maria.
Procurei um movimento e parece que o encontrei. Ouço o novo álbum do Rodrigo Leão. Ontem mesmo já o ouvi duas vezes. E penso: ou estou com espiríto crítico demasiado acutilante ou isto, apesar de bom, é mais do mesmo. Qual é o ponto em que o artista percebe que tem mais para dar? Que vai continuar a ser criativo? E aquele em que há a clara noção que não se irá mais além daquela forma, por mais artifícios, por mais, por mais, por mais... Ainda assim foi ao ouvir "A Mãe" que voltei a ter vontade nos dedos que tocam nas teclas e organizam as palavras.
Gosto do álbum do Rodrigo Leão, gosto, gosto. Mas não traz o que de novo esperamos daquele que foi apelidado como "o artista português mais concensual". Será? Será que há assim tanta gente a conhecer o trabalho dele e a gostar? Não me parece.
Quero voltar às palavras.
Procurei um movimento e parece que o encontrei. Ouço o novo álbum do Rodrigo Leão. Ontem mesmo já o ouvi duas vezes. E penso: ou estou com espiríto crítico demasiado acutilante ou isto, apesar de bom, é mais do mesmo. Qual é o ponto em que o artista percebe que tem mais para dar? Que vai continuar a ser criativo? E aquele em que há a clara noção que não se irá mais além daquela forma, por mais artifícios, por mais, por mais, por mais... Ainda assim foi ao ouvir "A Mãe" que voltei a ter vontade nos dedos que tocam nas teclas e organizam as palavras.
Gosto do álbum do Rodrigo Leão, gosto, gosto. Mas não traz o que de novo esperamos daquele que foi apelidado como "o artista português mais concensual". Será? Será que há assim tanta gente a conhecer o trabalho dele e a gostar? Não me parece.
Quero voltar às palavras.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
O que se vê em Marte #38
The Cinematic Orchestra @ Aula Magna
Foi uma Aula Magna quente e repleta de gente que recebeu a banda inglesa que tem uma mistura de sons essencialmente focados no jazz e na electrónica.
O que mais me impressionou no concerto foi ver que a banda, apesar de ter muitos elementos, toca muito bem e, esses mesmos elementos articulam-se na perfeição uns com os outros.
Nota negativa para os intervenientes de voz, que não sendo os originais não conseguiram imprimir um caracter às musicas da banda que são acompanhadas com letra.
De resto, um excelente concerto.
Foi uma Aula Magna quente e repleta de gente que recebeu a banda inglesa que tem uma mistura de sons essencialmente focados no jazz e na electrónica.
O que mais me impressionou no concerto foi ver que a banda, apesar de ter muitos elementos, toca muito bem e, esses mesmos elementos articulam-se na perfeição uns com os outros.
Nota negativa para os intervenientes de voz, que não sendo os originais não conseguiram imprimir um caracter às musicas da banda que são acompanhadas com letra.
De resto, um excelente concerto.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Em cabo Verde...
De volta de férias dei algumas voltas à cabeça para expressar o que esta viagem me causou. Depois de ler um texto da minha excelsa mãe nada melhor do que mostrá-lo aqui.
"A primeira impressão é o vento. Quem chega de madrugada ao Aeroporto Internacional Amílcar Cabral (dedução, pois parte do letreiro caiu), não se chega a sentir calor. O caminho até à carrinha que vai levar-nos ao hotel é aos ésses pelo empedrado. O que vale é que vai havendo um guia a cada volta. «Sejam bem vindos a Cabo Verde» – atira um deles, tomando o chão por pista de discoteca e dançando freneticamente dentro da roupa leve. Explica: «É por causa do frio».
Momentos depois, as portas da carrinha deslizam ligeiras, abrigando-nos do sopro da noite salense. De olhos muito abertos e sôfregos, procuramos na escuridão algo que identifique o local. Nada. São quilómetros de areia e pó, arbustos só no recinto do hotel. Alguns candeeiros ladeiam a estrada direita, a monotonia é apenas interrompida por rotundas a uma cadência regular.
No domingo, deixámos por conta de Mamadou o critério de uma volta à ilha: Palmeira, um local de ruas largas e também estreitas e onde só as centrais têm empedrado. O Salão Lena tem as portas fechadas, o que não é para admirar, pois é domingo e os poucos transeuntes atravessam-se à frente do jeep do nosso guia com a tranquilidade de quem sabe que ele vai esperar pela oportunidade para avançar. Sugiro um pensamento em voz alta, de que a vila se parece com o que terá sido Carvoeiro há uns 50 anos atrás. Não consegui o consenso da companhia, para quem Palmeira não se parece com lugar nenhum, a não ser consigo.
No Sal, senti-me sempre em casa. O bebé, cabelo encaracolado muito curto balouçou as pernas no assento improvisado dos meus braços. Não estranhou que uma visitante, agora mesmo entrada na loja de artesanato de chão de cimento, lhe tivesse pegado, sem motivo aparente. Conversámos os dois numa tagarelice incompreensível de monossílabos.
Ignorei os pedidos da Marta, receosa de que a anfitriã não achasse piada ao meu súbito assomo de saudades de pegar num bebé de colo. Mas a mãe dos dois pequenos (a menina gatinhava no chão) não pareceu incomodada com a inesperada manifestação de afecto. Guiou a Marta pelas prateleiras cheias de estatuetas de madeira nobre, iguais a tantas outras que existem nas lojas de artigos étnicos dos centros comerciais em Lisboa. Ia informando: 15 euros, 25 euros. A Marta pegava numa e trocava por outra, antes de se decidir, como se nunca tivesse visto artigo semelhante. Figuras femininas grávidas de fardos à cabeça, velhos alquebrados, instrumentistas musicais. Eu embalava o pequeno.
Mamadou, o guia, esperava paciente fora da loja, trocando frases soltas em crioulo com conhecidos locais. Estávamos em Palmeira, a manhã ia alta, celebrava-se uma missa campal no largo da povoação, à beira-mar. Pelo caminho, foi satisfazendo a nossa curiosidade em relação a um monte de coisas. Já confirmara que, na Ilha do Sal, todos se conhecem.
O nosso cicerone incluiu criteriosamente todos os locais de interesse da ilha no circuito. Murdeira e Buracona, onde mergulhadores exploram as profundezas de uma gruta natural; as salinas na cratera de um vulcão ainda activo, em Pedra de Lume, local parado no tempo, onde se destacam os edifícios compridos da arquitectura industrial, devolutos, lembram a actividade de outros tempos, e as estruturas de madeira onde, em tempos, rolaram os baldes cheios de sal, testemunham um período de actividade próspera para quem ali trabalhou e viveu. Uma capela de paredes caiadas, alindada com uma barra azul, compõe o cenário.
Não foi preciso andar muitos mais quilómetros para perceber que a Ilha do Sal não vive só de suspirar pelo passado. As recordações, povoa-as a população com o tempo em que ainda chovia e, entre outras culturas, se colhiam espargos. Daí o nome da cidade mais importante. A povoação, onde estão sedeadas as instituições, tem uma entrada a norte que não a favorece. As ruas não estão asfaltadas e as casas erguem-se à medida das posses de quem meteu mãos à empresa de as construir: primeiro o piso térreo, que pode ter pintura exterior ou não. De seguida, surgirá o segundo piso, quando houver possibilidade monetária.
Para aceder ao miradouro da cidade, junto ao edifício onde se situa o radar do controlo aéreo – como explica o guia – rolamos por uma estrada íngreme. Ao lado da porta de ferros retorcidos que, de deformada, não pode fechar-se, o guarda das instalações dorme ao sol inclemente. O guia faz um gesto largo para mostrar uma vista ampla sobre a cidade: à direita, a zona mais pobre, o emaranhado de ruas e casas sem aparente plano. À medida que se vai olhando para a esquerda, as habitações melhoram, exibindo grandes contentores de plástico nas açoteias. É que em Espargos, à semelhança de toda a ilha, não existe sistema de canalização para as habitações e a água é disponibilizada a dois euros a tonelada por uma empresa privada.
A falta de água não parece ter intimidado as empresas estrangeiras que, um pouco por todo o lado, exibem em diferentes fases de construção, novos resorts turísticos, um deles mesmo anunciando um campo de golfe. Afinal, a água que abastece a ilha é tratada e dessalinizada, ficando a engarrafada para consumo, nomeadamente dos muitos turistas que, ao longo de todo o ano, acorrem, num entusiasmo que não esmorece, aos hotéis de cada vez maiores dimensões que estão a surgir na costa.
Contrastando com a populosa Espargos, Santa Maria exibe todos os sinais de uma cidade que vive exclusivamente para o turismo, onde um apartamento já pode custar 100 a 150 mil euros. Ruas largas de traçado regular, lojas, restaurantes, hotéis, bares e cibercafés. O acesso à rede paga-se às fatias de hora (quarenta minutos a 1 euro, dizem-nos). À noite, se não fosse a incrível diversidade e pujança da música local a fazer a diferença, os bares podiam parecer-se com incontáveis outros espalhados pela costa algarvia e da Sul de Espanha. O prato de resistência não inclui só música cabo-verdiana, mas o inevitável karaoke e acolhe também nomes de sonoridade europeia que estão a encontrar no local um inesperado e bem-vindo mercado de trabalho.
O guia Mamadou vai desfiando dados sobre a ilha, procurando satisfazer a nossa curiosidade. As etnias, dados económicos, notícias sobre o andamento dos empreendimentos imobiliários, o arrojo das empresas que se instalaram na Ilha do Sal com os negócios mais arriscados e inovadores (como estufas de relva), e que nos fazem pensar que, havendo vontade, nada é impossível. E vai fazendo revelações, em conversa solta. Que em Cabo Verde, a população não tem por hábito celebrar casamento de maneira formal.
O que fica de uma visita de oito dias e sete noites? Uma quantas anotações, colhidas ao acaso no que ficou gravado na memória. Praias bem cuidadas e outras ao abandono, onde a autarquia deixa ficar o lixo; a construção a avançar pela paisagem árida; as baías, ora de pedra vulcânica, ora de areia branca, carregadores que disputam clientes europeus e reclamam moedas «para comer uma canja»; o ritmo contagiante da música, a sonoridade do crioulo local; frases ditas por gente sábia, ainda que nova na idade: «Eu não li livros, mas sei fazer coisas»; uma aliança bem conseguida entre a cultura local e a europeia, que fornece, aliás, os contingentes mais respeitáveis de turistas; cabo- verdianos que acreditam que o seu destino é sair da terra, outros que não. Uma estimável relação com Portugal, que os faz torcer pelo Benfica «até que a morte nos separe».
E a forma como as actuais investidas do investimento estrangeiro se cruzam com a soberania local, devendo os detentores dos órgãos de poder avaliar com critério as propostas que se apresentam, a favor das que permitam o desenvolvimento sustentado. Assim possam decidir com critério e no interesse das populações locais. "
Momentos depois, as portas da carrinha deslizam ligeiras, abrigando-nos do sopro da noite salense. De olhos muito abertos e sôfregos, procuramos na escuridão algo que identifique o local. Nada. São quilómetros de areia e pó, arbustos só no recinto do hotel. Alguns candeeiros ladeiam a estrada direita, a monotonia é apenas interrompida por rotundas a uma cadência regular.
No domingo, deixámos por conta de Mamadou o critério de uma volta à ilha: Palmeira, um local de ruas largas e também estreitas e onde só as centrais têm empedrado. O Salão Lena tem as portas fechadas, o que não é para admirar, pois é domingo e os poucos transeuntes atravessam-se à frente do jeep do nosso guia com a tranquilidade de quem sabe que ele vai esperar pela oportunidade para avançar. Sugiro um pensamento em voz alta, de que a vila se parece com o que terá sido Carvoeiro há uns 50 anos atrás. Não consegui o consenso da companhia, para quem Palmeira não se parece com lugar nenhum, a não ser consigo.
No Sal, senti-me sempre em casa. O bebé, cabelo encaracolado muito curto balouçou as pernas no assento improvisado dos meus braços. Não estranhou que uma visitante, agora mesmo entrada na loja de artesanato de chão de cimento, lhe tivesse pegado, sem motivo aparente. Conversámos os dois numa tagarelice incompreensível de monossílabos.
Ignorei os pedidos da Marta, receosa de que a anfitriã não achasse piada ao meu súbito assomo de saudades de pegar num bebé de colo. Mas a mãe dos dois pequenos (a menina gatinhava no chão) não pareceu incomodada com a inesperada manifestação de afecto. Guiou a Marta pelas prateleiras cheias de estatuetas de madeira nobre, iguais a tantas outras que existem nas lojas de artigos étnicos dos centros comerciais em Lisboa. Ia informando: 15 euros, 25 euros. A Marta pegava numa e trocava por outra, antes de se decidir, como se nunca tivesse visto artigo semelhante. Figuras femininas grávidas de fardos à cabeça, velhos alquebrados, instrumentistas musicais. Eu embalava o pequeno.
Mamadou, o guia, esperava paciente fora da loja, trocando frases soltas em crioulo com conhecidos locais. Estávamos em Palmeira, a manhã ia alta, celebrava-se uma missa campal no largo da povoação, à beira-mar. Pelo caminho, foi satisfazendo a nossa curiosidade em relação a um monte de coisas. Já confirmara que, na Ilha do Sal, todos se conhecem.
O nosso cicerone incluiu criteriosamente todos os locais de interesse da ilha no circuito. Murdeira e Buracona, onde mergulhadores exploram as profundezas de uma gruta natural; as salinas na cratera de um vulcão ainda activo, em Pedra de Lume, local parado no tempo, onde se destacam os edifícios compridos da arquitectura industrial, devolutos, lembram a actividade de outros tempos, e as estruturas de madeira onde, em tempos, rolaram os baldes cheios de sal, testemunham um período de actividade próspera para quem ali trabalhou e viveu. Uma capela de paredes caiadas, alindada com uma barra azul, compõe o cenário.
Não foi preciso andar muitos mais quilómetros para perceber que a Ilha do Sal não vive só de suspirar pelo passado. As recordações, povoa-as a população com o tempo em que ainda chovia e, entre outras culturas, se colhiam espargos. Daí o nome da cidade mais importante. A povoação, onde estão sedeadas as instituições, tem uma entrada a norte que não a favorece. As ruas não estão asfaltadas e as casas erguem-se à medida das posses de quem meteu mãos à empresa de as construir: primeiro o piso térreo, que pode ter pintura exterior ou não. De seguida, surgirá o segundo piso, quando houver possibilidade monetária.
Para aceder ao miradouro da cidade, junto ao edifício onde se situa o radar do controlo aéreo – como explica o guia – rolamos por uma estrada íngreme. Ao lado da porta de ferros retorcidos que, de deformada, não pode fechar-se, o guarda das instalações dorme ao sol inclemente. O guia faz um gesto largo para mostrar uma vista ampla sobre a cidade: à direita, a zona mais pobre, o emaranhado de ruas e casas sem aparente plano. À medida que se vai olhando para a esquerda, as habitações melhoram, exibindo grandes contentores de plástico nas açoteias. É que em Espargos, à semelhança de toda a ilha, não existe sistema de canalização para as habitações e a água é disponibilizada a dois euros a tonelada por uma empresa privada.
A falta de água não parece ter intimidado as empresas estrangeiras que, um pouco por todo o lado, exibem em diferentes fases de construção, novos resorts turísticos, um deles mesmo anunciando um campo de golfe. Afinal, a água que abastece a ilha é tratada e dessalinizada, ficando a engarrafada para consumo, nomeadamente dos muitos turistas que, ao longo de todo o ano, acorrem, num entusiasmo que não esmorece, aos hotéis de cada vez maiores dimensões que estão a surgir na costa.
Contrastando com a populosa Espargos, Santa Maria exibe todos os sinais de uma cidade que vive exclusivamente para o turismo, onde um apartamento já pode custar 100 a 150 mil euros. Ruas largas de traçado regular, lojas, restaurantes, hotéis, bares e cibercafés. O acesso à rede paga-se às fatias de hora (quarenta minutos a 1 euro, dizem-nos). À noite, se não fosse a incrível diversidade e pujança da música local a fazer a diferença, os bares podiam parecer-se com incontáveis outros espalhados pela costa algarvia e da Sul de Espanha. O prato de resistência não inclui só música cabo-verdiana, mas o inevitável karaoke e acolhe também nomes de sonoridade europeia que estão a encontrar no local um inesperado e bem-vindo mercado de trabalho.
O guia Mamadou vai desfiando dados sobre a ilha, procurando satisfazer a nossa curiosidade. As etnias, dados económicos, notícias sobre o andamento dos empreendimentos imobiliários, o arrojo das empresas que se instalaram na Ilha do Sal com os negócios mais arriscados e inovadores (como estufas de relva), e que nos fazem pensar que, havendo vontade, nada é impossível. E vai fazendo revelações, em conversa solta. Que em Cabo Verde, a população não tem por hábito celebrar casamento de maneira formal.
O que fica de uma visita de oito dias e sete noites? Uma quantas anotações, colhidas ao acaso no que ficou gravado na memória. Praias bem cuidadas e outras ao abandono, onde a autarquia deixa ficar o lixo; a construção a avançar pela paisagem árida; as baías, ora de pedra vulcânica, ora de areia branca, carregadores que disputam clientes europeus e reclamam moedas «para comer uma canja»; o ritmo contagiante da música, a sonoridade do crioulo local; frases ditas por gente sábia, ainda que nova na idade: «Eu não li livros, mas sei fazer coisas»; uma aliança bem conseguida entre a cultura local e a europeia, que fornece, aliás, os contingentes mais respeitáveis de turistas; cabo- verdianos que acreditam que o seu destino é sair da terra, outros que não. Uma estimável relação com Portugal, que os faz torcer pelo Benfica «até que a morte nos separe».
E a forma como as actuais investidas do investimento estrangeiro se cruzam com a soberania local, devendo os detentores dos órgãos de poder avaliar com critério as propostas que se apresentam, a favor das que permitam o desenvolvimento sustentado. Assim possam decidir com critério e no interesse das populações locais. "
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quinta-feira, 19 de março de 2009
sexta-feira, 13 de março de 2009
Imagens em Marte #3
Apetece-me escrever o mundo e, ao mesmo tempo, não me apetece rigorosamente nada. Escrevi vários princípios e por aí me fiquei. E venho aqui desejar um excelente fim de semana.
Talvez na próxima semana me ocorram palavras.
Foto daqui: Photobucket
quinta-feira, 5 de março de 2009
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