Tenho uma vizinha muito simpática, cada vez que a vejo limita-se a dizer-me bom dia ou boa tarde. Sim porque há vizinhos que uma vez apanhados no elevador ou em qualquer outra parte pública do prédio decidem reflectir em voz alta sobre a metafísica do nada. Às vezes acho que não vivo neste prédio, nem tenho os vizinhos que tenho, tal é a surrealidade que lhes encontro. Há um que cada vez que o vejo pergunta-me pela escola; ele, na verdade, nunca me viu mais gorda mas decidiu que eu hei-de andar para sempre na escola. Questiono-me o que perguntará às crianças, como vai a creche? Já outro deve padecer de alguma fobia que só anda de elevador sozinho, dias houve em que ia entrar no elevador e o simpático senhor levantou uma mão proibindo a minha entrada. A primeira vizinha de quem falei, simpática sim, sempre que a encontro apetece-me inquiri-la. Mas não consigo porque a senhora realmente não deve gostar de socializar com os vizinhos. A questão é que a senhora vive por cima de mim e todo o santo dia de manhã arrasta móveis de madeira na cozinha. Já dei voltas à cabeça para tentar perceber porque o faz, mas nada com sentido me ocorre (enquanto escrevo este post esse mesmo som acontece). Não sei o que me irrita mais se esse som ensurdecedor todas as manhãs e sem explicação, se aquele que acontece com os vizinhos de baixo que durante a semana de madrugada chamam um ao outro, na versão feminina: meu rei leão, meu rei leão, meu rei leão, ou na versão masculina: minha jane, minha jane, minha jane.
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quinta-feira, 22 de maio de 2008
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
As identificações geram simpatias. É como o gole no copo de vinho que enebria, dando um ligeiro toque de alegria ao cérebro. Pouco ou tanto quanto isso.
E quando não há identificações mas há simpatias é bem mais complicado. E assim se dividem os amigos. Uns parecendo mais escolhidos e outros mais como a família. E gostamos de ambos.
E quando não há identificações mas há simpatias é bem mais complicado. E assim se dividem os amigos. Uns parecendo mais escolhidos e outros mais como a família. E gostamos de ambos.
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terça-feira, 6 de novembro de 2007
No title
Quando olho para esta quase tela em branco quase me assusta. Hoje já olhei para ela três ou quatro vezes.
Penso num trampolim que criei no armário das palavras, para onde elas saltaram há uns dias, e vejo letras a espernear e a entoar gritos de satisfação, tal é o prazer do embate numa superficie elástica, que as leva a um movimento dinâmico. Pergunto-me como se ordenam as letras e as palavras. O que dizem elas do que penso? Penso que escrevo e que escrever é o melhor modo de pensar. Pouco mais que isso.
É engraçado o jogo das palavras. Uma palavra é isso e nada mais. O efeito que ela traz tem tudo a ver com a forma como é dita e por quem a diz. Por isso tantas vezes as palavras que dizemos são mal interpretadas e geram conflitos e mal entendidos. Talvez seja essa a razão que me reforça a vontade de escrever em detrimento de falar. Falar custa, mói. Esgota-me. Escrever também, mas quem lê dá-lhe o sentido que entender e se não der o que eu quis descarto-me facilmente dessa responsabilidade (apesar de não poder).
Na verdade o que eu quero é escrever. Nada mais que isso.
Penso num trampolim que criei no armário das palavras, para onde elas saltaram há uns dias, e vejo letras a espernear e a entoar gritos de satisfação, tal é o prazer do embate numa superficie elástica, que as leva a um movimento dinâmico. Pergunto-me como se ordenam as letras e as palavras. O que dizem elas do que penso? Penso que escrevo e que escrever é o melhor modo de pensar. Pouco mais que isso.
É engraçado o jogo das palavras. Uma palavra é isso e nada mais. O efeito que ela traz tem tudo a ver com a forma como é dita e por quem a diz. Por isso tantas vezes as palavras que dizemos são mal interpretadas e geram conflitos e mal entendidos. Talvez seja essa a razão que me reforça a vontade de escrever em detrimento de falar. Falar custa, mói. Esgota-me. Escrever também, mas quem lê dá-lhe o sentido que entender e se não der o que eu quis descarto-me facilmente dessa responsabilidade (apesar de não poder).
Na verdade o que eu quero é escrever. Nada mais que isso.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007
A História de Manel Canário, o Fadista de Xabregas de Baixo
Manel, um operário da fábrica de enlatados de Xabregas, engordou uns kilos desde 1987, quando desposou Natércia, eterna candidata a Miss Xabregas, perdendo injustamente nesse ano para a esfusiante Maria de Fátima. Sendo o seu nome constante nas listas de beldades Xabreguenses, não foi surpresa quando, finalmente em 1991 Natércia de Jesus ganhou, distintivamente, o dito concurso.
A cerveja ao fim da tarde, depois de sair da fábrica, o tremoço a ver o Benfica, as tardes de Sábado a ver jogos internacionais na Sport Tv, aumentaram o diâmetro do ventre de Manel ao ponto de resvalar por fora das calças e de não haver buracos no cinto que a suportasse. Ao olhar uma fotografia de 1991 com os seus compinchas pode reparar que na altura, todos mais novos e mais magros, o bigode era um adereço da moda, quanto maior e mais proeminente melhor. Hoje em dia, Manel é o único que continua a envergar, orgulhosamente, a sua bigodaça, não abdicando do manto peludo que tapa o lábio superior, caso contrário sentir-se-ia nú.
Manel Canário é um fadista nas horas vagas, escrevinhando uns poemas lá em casa, quando o tempo lhe permite. Nas noites de sexta-feira com o seu amigo Trovador, que toca viola, enchem as noites da Tasca do Zé Chaves com melodias e letras de sua autoria.
Na Tasca, entre os amigos, é conhecido pel'O Costa, não por este ser um dos seus apelidos, mas por ser muito parecido com um jovem que jogou no Xabregas Futebol Clube, tornando-se uma lenda dada a quantidade e facilidade com que marcava golos. O Costa é também muito conhecido em Xabregas pelo Fadista, pelo que se verifica a quantidade de alcunhas que tem.
20 anos depois do casamento com Natércia, Manel decidiu que este ano não se esqueceria de assinalar essa data tão marcante, apesar de nos anos anteriores o esquecimento ser mais constante do que gostaria de admitir. Encomendou uns rissóis à Maria de Fátima, pediu ao Zé Chaves para guardar a tasca só para os amigos, juntou alguma família e escrevinhou um poema para o Trovador musicar. Faz lá uma melodia bonita, é para a minha Natércia, este ano vai ser à séria!
No dia do acontecimento, ansioso, decidiu fingir que nada se passava. Trabalhou até às 5 na fábrica, hora a que ligou a Natércia a perguntar se não queria acompahá-lo à tasca do Chaves para comer uns tremoços e beber umas bejecas.
Ai filho tenho tanta roupa para passar!
Mas Natércia acedeu ao convite. Chegada à tasca do Chaves achou estranho ver um prato colorido com rissóis sorridentemente dispostos e sumo de laranja para acompanhar. Perguntou a Maria de Fátima se havia festa. Oh Comadre, então não?
O Costa já emocionado por ver tanta gente reunida para ouvir um fado inédito, sentou sua mulher na primeira plateia de cadeiras de plástico, perto do balcão onde o Chaves, de braços pendurados, aguardava ansiosamente o momento alto do final da tarde.
Natércia, querida, parece que foi Ontiontem de manhã!
Na parede, um pouco acima do lugar onde o Costa se posicionou para encher os pulmões de ar e começar a cantar, havia, pregado, um letreiro que dizia: Silêncio! Aqui canta-se o fado!
"Ontiontem de manhã
Era eu um homem cego
Ontiontem de manhã
Era eu jovem solteiro
Ontiontem de manhã
Vieste tu, luminosa
Ontiontem de manhã
Por ti me apaixonei perdidamente
Desculpa se não sei rimari
Só sei que parece que foi
Ontiontem de manhã
Ontiontem de manhã
Ontiontem de manhã
Ontiontem de manhã
Ontiontem de manhã
No altar te vi entrar
Ontiontem de manhã
O anel te pus no dedo anelar
Ontiontem de manhã
Ontiontem de manhã
Ontiontem de manhã"
As palmas não se fizeram esperar acompanhadas de Bravos e sorrisos espalhados pela tasca que estava apinhada Bravo, bravo!
Natércia emocionada, com a mala ao colo, procurando um lenço de papel para limpar uma lagrimita, ganhou coragem e disse Oh filho que bonito, mas sabes fizemos 20 anos de casados Antes de ontem!
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Intenções
Agora sinto que estou a começar. Outra vez.
Quero falar de cultura.
E de música. E de música. E de música.
Cinema.
E livros.
E sensações.
Talvez imagens. E olhares.
Tenho motivações. Resta-me saber se respeito as vontades.
O pior é sentir-me insuficiente. Sempre.
Quero falar de cultura.
E de música. E de música. E de música.
Cinema.
E livros.
E sensações.
Talvez imagens. E olhares.
Tenho motivações. Resta-me saber se respeito as vontades.
O pior é sentir-me insuficiente. Sempre.
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terça-feira, 16 de outubro de 2007
Dia mundial de qualquer coisa...
Há "verdades" que são para mim qualquer coisa de inabalável. Tem a ver com a definição que temos de nós próprios. Apesar de parecer contraditório, vou questionando-as.
Há duas coisas que gosto na vida, a imagem e o som, e se pensarmos bem nestas duas simples palavras, delas advêm tantas outras.
A imagem está relacionada com os olhos, os meus apesar de serem míopes, sistematizam cada uma e mais outras...e armazenam; é por isso que atravesso a passadeira mais rápido, para ficar com a máquina fotográfica e captar essas imagens que ficam para a posteridade. Pode ter a ver com outras "verdades", como a liderança, ou ainda outras que desconheço.
Gosto de fotografia, mas gostava de perceber mais. As imagens fazem-me ver ângulos invulgares, olhar para cima incessantemente e pensar que devia andar sempre com a máquina. Não aprendo! Gosto de estéticas e absorvo-as à velocidade que os olhos a recebem, é qualquer coisa maquinal.
O som faz muito mais parte das nossas vidas do que por vezes imaginamos. Está em todo o lado, nas palavras e nos silêncios. E principalmente na música. Gosto das palavras, do som que algumas têm. Penso-as, ouço-lhes o som, separo-as por sílabas.
Tenho uma palavra preferida nos dias que correm: FU-SÃO, tem um som maravilhoso. E para além do som, carrega um significado que me é caro.
E penso música ao sabor das palavras e dos momentos e sobre ela sistematizo mais tarde.
Há dias foi o Dia Mundial da Música, devia haver um Dia Mundial da Imagem, ou um Dia Mundial de Todos Nós, ou então não havia pura e simplesmente dias mundiais, há por aí muitas "classes" e muitas "verdades" indignadas por não terem o seu próprio dia.
Hoje é o Dia Mundial da Alimentação. Não tenho muito para falar de alimentação, a nao ser que, na verdade, gosto de me alimentar! E o dia de hoje serviu-me o propósito de um "post", apesar de não ter rigorosamente nada a ver com a "celebração", mas com todos os meus dias.
Há duas coisas que gosto na vida, a imagem e o som, e se pensarmos bem nestas duas simples palavras, delas advêm tantas outras.
A imagem está relacionada com os olhos, os meus apesar de serem míopes, sistematizam cada uma e mais outras...e armazenam; é por isso que atravesso a passadeira mais rápido, para ficar com a máquina fotográfica e captar essas imagens que ficam para a posteridade. Pode ter a ver com outras "verdades", como a liderança, ou ainda outras que desconheço.
Gosto de fotografia, mas gostava de perceber mais. As imagens fazem-me ver ângulos invulgares, olhar para cima incessantemente e pensar que devia andar sempre com a máquina. Não aprendo! Gosto de estéticas e absorvo-as à velocidade que os olhos a recebem, é qualquer coisa maquinal.
O som faz muito mais parte das nossas vidas do que por vezes imaginamos. Está em todo o lado, nas palavras e nos silêncios. E principalmente na música. Gosto das palavras, do som que algumas têm. Penso-as, ouço-lhes o som, separo-as por sílabas.
Tenho uma palavra preferida nos dias que correm: FU-SÃO, tem um som maravilhoso. E para além do som, carrega um significado que me é caro.
E penso música ao sabor das palavras e dos momentos e sobre ela sistematizo mais tarde.
Há dias foi o Dia Mundial da Música, devia haver um Dia Mundial da Imagem, ou um Dia Mundial de Todos Nós, ou então não havia pura e simplesmente dias mundiais, há por aí muitas "classes" e muitas "verdades" indignadas por não terem o seu próprio dia.
Hoje é o Dia Mundial da Alimentação. Não tenho muito para falar de alimentação, a nao ser que, na verdade, gosto de me alimentar! E o dia de hoje serviu-me o propósito de um "post", apesar de não ter rigorosamente nada a ver com a "celebração", mas com todos os meus dias.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Texto introdutório de qualquer coisa
Nas linhas do comboio que observo de um ponto privilegiado, edito a linha do meu pensamento, por vezes redundante, outras apenas confessional. E essa linha conduz à estação que devo sair, onde as pessoas pegam em canetas e papeis e formalizam as letras que dançam no pensamento. Das linhas vejo também o rio, a água e a ponte, que, inevitavelmente, é uma passagem, para onde já se sabe. Eu não quero passar, quero ficar aqui e explorar tudo quanto há.
A linha define o que preciso. Escrever como o ar. Apenas isso.
Talvez presunção...pouco mais que isso.
A linha define o que preciso. Escrever como o ar. Apenas isso.
Talvez presunção...pouco mais que isso.
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terça-feira, 18 de setembro de 2007
Letras
Porque é tão difícil voltar a este exercício? Brincar com as letras. Arranjar as palavras e as vírgulas e os pontos. Não passa de um jogo...
Era tão fácil abrir a página e desatar às palavras, ficar quase satisfeita com o resultado final. E, na verdade, confesso, hoje não o é.
Vou escrever. Vou desatar às palavras até não puder mais.
Vou.
Era tão fácil abrir a página e desatar às palavras, ficar quase satisfeita com o resultado final. E, na verdade, confesso, hoje não o é.
Vou escrever. Vou desatar às palavras até não puder mais.
Vou.
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